O Teatro

Teatro Verde

Em 2011, o Maria Matos Teatro Municipal organizou a conferência internacional Dois Graus – Arte, Alterações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável. As palestras de especialistas nacionais e internacionais na matéria provocaram no público presente e nos colaboradores do Teatro uma tomada de consciência sobre o papel do setor cultural no processo de transição para a sustentabilidade e forneceram as linhas gerais para um plano de implementação de práticas sustentáveis no quotidiano do Teatro.

Não existem dados para Portugal, mas tomando como referência os teatros de Londres, sabemos que estes emitem anualmente 50 000 toneladas de CO², o equivalente às emissões anuais de cerca de 9 mil habitações. Lisboa não é Londres, porém os números dão uma ideia da importância do problema. Os dados estatísticos dos espaços performativos de Londres são também relevantes no que toca às origens das emissões, porque o primeiro passo para as reduzir é saber onde intervir:

  • Metas de redução nos teatros de Londres
  • Climatização e aquecimento dos auditórios – 35%
  • Climatização e aquecimento das salas de ensaios – 28%
  • Funcionamento escritórios (incluindo climatização e aquecimento) – 9%
  • Eletricidade palco – 9%
  • Sistemas noturnos – 6%
  • Pré-produção – 5%
  • Materiais (cenários, figurinos,…) – 5%
  • Iluminação exterior – 2%

Com base nestes números e nas experiências partilhadas com organizações como a ArtsAdmin e a Julie’s Bicycle durante a conferência, foram delineadas as seguinte as áreas prioritárias de intervenção no Maria Matos Teatro Municipal no período entre 2011 e 2018.

Foi estabelecida uma parceria com a Lisboa E-Nova, Agência Municipal de Energia e Ambiente, de forma a poder organizar-se dados e monitorizar os consumos energéticos do Teatro, através do Gestor Remoto. A Agência forneceu um diagnóstico preciso do consumo do Teatro, numa primeira fase e permitiu a monitorização de algumas medidas nos momentos subsequentes.

No âmbito deste diagnóstico, foram implementadas as seguintes medidas para otimizar a eficiência energética:

  • Limite de utilização do sistema de ar condicionado nas zonas públicas e nos escritórios não sendo inferior a 16º ou superior a 26º;
  • Substituição progressiva das lâmpadas por lâmpadas de baixo consumo e colocação de sensores de movimento para iluminação de alguns dos espaços públicos;
  • Limite de temperatura e horário de carga de termoacumulador, carregando apenas em horário vazio;
  • Colocação de uma interface na zona técnica que passou a permitir que o AVAC da Sala Principal possa ser ativado apenas quando é solicitado e desativado à saída das equipas.

 

Em relação aos resíduos, foram adoptadas as seguintes as práticas de redução de consumos e reciclagem:

  • Consumo de água da torneira em substituição ao consumo de água engarrafada;
  • Eliminação de garrafas e copos de plástico, tanto entre a equipa do teatro como, sempre que possível, com equipas artísticas externas e em todas as atividades públicas em que seja necessária loiça (deixámos completamente de usar loiça descartável e todos os pratos, talheres e copos são orgânicos ou reutilizáveis);
  • Reciclagem de papel, embalagens, tinteiros, equipamentos eletrónicos, madeira, etc. com revisão de tipo de contentores disponíveis – presença de ecopontos em todas as zonas públicas, bastidores e gabinetes e relocalização de baldes para indiferenciado por piso de gabinetes;
  • Uso de papel proveniente de florestas certificadas e de plástico reciclado de produção nacional em todos os suportes gráficos e estacionário e, a partir da temporada 2017-2018, faremos uma transição digital que significará a redução significativa do uso de papel no nosso plano de meios;
  • Utilização de detergentes biodegradáveis;
  • Configuração dos computadores para impressão de baixa qualidade e a preto e branco por defeito;
  • Redução de fluxo em todas as torneiras.

A limitação das emissões com viagens e transportes foi uma das medidas mais difíceis a implementar no contexto do trabalho realizado pelo Teatro Maria Matos, que incluiu não só as deslocações dos colaboradores do Teatro, mas também as viagens e transportes de artistas estrangeiros e dos seus públicos. Mesmo assim, houve medidas concretas que adotámos:

  • Utilização de transportes públicos para deslocações locais e nacionais, sempre que possível;
  • Otimização das viagens de artistas estrangeiros através da programação em rede;
  • Aquisição de produtos de origem nacional e com a menor distância de fornecimento, sempre que possível;
  • Colocação de parque de bicicletas na proximidade do teatro, em articulação com o os serviços da CML.

Além destes esforços nos bastidores, o Teatro, depois da iniciativa que falámos inicialmente – a conferência internacional Dois Graus – Arte, Alterações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável – fez um esforço de integração desta temática na sua programação, como forma privilegiada de relacionamento e diálogo com os seus públicos, tendo apresentado as seguintes iniciativas relacionadas com a sustentabilidade, reforçadas a partir de 2015 quando o Teatro integrou a rede IMAGINE 2020 – Art and Climate Change, cofinanciada pelo Programa Europa Criativa da União Europeia:

  • Transição – ciclo de conferências e eventos (2013);
  • Mais Pra Menos Que Pra Mais – debates, performances, percursos, hortas urbanas e espetáculos, um projeto de Vera Mantero realizado em parceria com a Culturgest (2014);
  • As 3 Ecologias – ciclo de conferências, workshops, performances e espetáculos (2016);
  • Utopia – Arquipélago Verde – ciclo de conferências, workshops, performances e espetáculos (2017).

Um ponto essencial na transição do Maria Matos Teatro Municipal para a sustentabilidade passou pela consciencialização e consequente mudança de hábitos. Artistas e companhias convidadas eram acolhidos com um green rider (existe também um modelo de green rider para a própria equipa do teatro), que reunia práticas simples, porém essenciais, para uma mudança transversal no modo como trabalhamos.

A mudança de hábitos é tão importante como a implementação de soluções tecnológicas, mas leva tempo e só pode ser alcançado através de um esforço continuado e conjunto. Foi o que tentámos fazer aos longo de 7 anos.